sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

31º dia de Chavin de Huantar a Cerro Azul 570 km

31º dia
Dia 06 de janeiro de 2017

Trajeto do dia

A chuva a noite fez entrar um pouco de água na barraca, pois a lona tinha alguns furinhos e ao cair sobre a barraca escorria até a costura do fundo e entrava. Tive que colocar umas roupas sujas para segurar a água que caía e não me molhar.
Amanheceu com uma garoa fina e a montanha acima encoberta de neblina. Desmontei a barraca e guardei ela molhada. 
Comecei a subir a cordilheira, que estava com obras na estrada intercalando partes com asfalto e outras sem, sempre com cuidado, pois a parte de barro estava lisa. As 7:30 horas eu estava no túnel que cruza a montanha a 4.516 msnm, o túnel Kahuish. O túnel não tem iluminação e eu que já não me sinto bem em túneis iluminados fui "cortando prego" com medo de alguma pedra ou buraco na pista, em 3 minutos estava do outro lado.




 Com os dedos congelando comecei a descer, podia ver nas encostas das montanhas gelo da última nevasca e os picos encobertos de neblina negando a mim a beleza dos picos nevados. Fui descendo e a chuva diminuindo até parar. Cheguei na Laguna Querococha e o sol envergonhado começava a se mostrar entre as nuvens e formava um belo arco-iris sobre a laguna. Tirei algumas fotos e continuei a descida até chegar novamente na ruta 3N que segui até a Laguna Conococha, onde segundo meu roteiro eu deveria pegar umas estradas de chão por mais de 200 km e outros 400 de asfalto para chegar em Huancaya e em função das chuvas e das condições das estradas que tinha pego nos dias anteriores eu optei por descer até o litoral para pegar apenas asfalto e não me atrasar muito no meu roteiro.

Trecho entre o túnel Karuish e a Laguna Conococha 





Desci então para Paramonga e peguei a Panamericana desta vez no sentido sul. Almocei em uma lanchonete à beira da rodovia e pelas 15:00 no meio do deserto a 30 km da cidade mais próxima, Chancay, vejo um cara com uma moto desmontada no acostamento, reconheço a moto pela proteção do freio a disco, era o Matus, o cara que conheci no Parque Nacional Huascaran alguns dias atrás. Parei e voltei pra ver se ele precisava de ajuda, o calor era forte, tinha rachado o tanque da moto e ele não sabia o que faria, se deixava a moto e pegava uma carona pra consertar o tanque ou se pagava alguém que se dispusesse a ajuda-lo a levar a moto até a cidade mais próxima. Comecei a avaliar uma solução paliativa para o problema para que ele conseguisse chegar até a próxima cidade. Como a moto dele é carburada poderíamos substituir o tanque dele por qualquer outra coisa, ele tinha uma PET de 2 litros e uma mangueirinha que cabia certinho no filtro de gasolina, expliquei pra ele como fazer um tanque com aquele litro, ele fez e amarrou perto do "pequeno" galão de gasolina que ele levava amarrado na lateral da moto, deu partida e a moto pegou. Ele ficou muito feliz com minha ajuda e de toda forma queria me recompensar, perguntou se eu precisava de alguma coisa e eu falei que apenas de tempo, pois estava atrasado no meu roteiro. Ele então tirou do punho um bracelete de couro que a mãe dele tinha dado à ele para eu levar como recordação e como amuleto de sorte. Mesmo não tendo o costume de utilizar qualquer tipo de ornamento aceitei em forma de respeito a gratidão dele. Acompanhei ele até a próxima cidade e segui viagem.
O eslovaco que ajudei na Panamericana
 
A moto dele não tinha placa, comprou de um brasileiro amigo dele em Iquitos e já era a terceira ou quarta vez que ele ficava na rua com ela, era uma moto de 200cc que não andava mais que a Biz, tinha pago R$1500,00 nela, iria até Cusco e venderia ela para então retornar para a Eslováquia. E dizem que eu que sou louco. Andar como moto que não é confiável em país distante e sem placa, no quesito loucura o Matus ganhou de mim, mas certamente hoje ele tem muitas histórias para contar sobre os perrengues dele com a amada chinezinha que ele me descreveu com um dicionário inteiro de palavrões em inglês o seu amor por ela.
Segui então e em uma cidade a frente parei para comprar uma lona em um material de construção. Pedi pela lona e expliquei onde ia usar, o cara viu a moto, perguntou de onde vinha e pra onde ia e depois de cortada a lona fui pagar e ele não aceitou, custaria R$12,00 aquela lona, meu primeiro patrocínio até hoje. 

Loja do cara que me deu a lona
 
Cheguei em Lima as 17 horas e o transito estava uma loucura, parecia São Paulo. Eu curto transito pesado, Lima tem poucas motos e é legal menos perigoso andar lá que no transito de nossas cidades, então quando passou por mim uma Twister da policia eu fui seguindo, andei uns 20 km atrás do policial. 





A rodovia que corta a cidade é grande, em alguns lugares tem 5 pistas em cada sentido e bem sinalizada, sendo fácil cruzar a cidade sem errar, levei cerca de uma hora pra cruzar a cidade. Após Lima passei por balneário muito bonitos que já tinha passado anteriormente, em um deles parei para comprar pão e frutas. Perto do por do sol eu procurava um lugar para acampar e achei um ótimo lugar entre dois condomínios em uma encosta rochosa coberta por uma areia fininha. Montei a barraca e depois assisti a um maravilhoso por do sol que deixou o céu vermelho.
Local do Camping

 
Quilometragem do dia: 570 km
Quilometragem acumulada: 10.050 km